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Maureen Gallace

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uma das minhas técnicas favoritas para lidar com uma situação é escrever cartas. já escrevi cartas para: meu pai, minha mãe, amigas, minha namorada, pessoas que morreram, meu gato, pessoas que nunca mais queria ver, para o meu eu do futuro e meu eu do passado, para sentimentos específicos, partes do corpo e imagens que apareceram em sonhos.

raramente enviei/entreguei essas cartas, no caso de pessoas reais.

essa técnica, assim como todo o propósito terapêutico, não é sobre o outro e sim sobre nós mesmos. é uma forma de organizar os sentimentos e de certa forma comunicá-los sem qualquer restrição (já que ela não será enviada). no meu caso, é uma forma excelente de colocar a raiva para fora sem enfrentar as repreensões. pela minha dificuldade em expor esse lado, e também em entender que nem tudo precisa ser colocado para a outra pessoa, a carta permite uma válvula de escape que raramente encontro em outros métodos de externalização dos sentimentos. também favorece envolver a escrita, com a qual me identifico.

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Maureen Gallace

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nos últimos dias, comecei a montar um quebra-cabeças. tenho refletido um pouco sobre o que isso significa nesse momento da minha vida – aquela coisa de metáforas e tal. é claro que muita coisa não se encaixa: tento e tento e a peça certa não é encontrada. têm muitas peças ao meu redor, são várias tentativas. enquanto monto o quebra-cabeças, literal ou não, sinto a falta. fico nessa filosofia de que o que importa é o caminho, o tempo que vou levar pra montar isso, a paciência em testar, a satisfação breve quando uma pequena porcentagem da grande imagem se faz conhecida.

minhas apostas profissionais parecem um pouco assim: há uma pequena referência (a arteterapia), e cerca de 800 opções que preciso tentar encaixar nessa proposta. algumas não me agradam e eu me forço a fazer (como montar aquela área verde em que todas as peças são semelhantes), outras me agradam mas não me sinto capaz de levar em frente (começar pelo castelo e dali progredir para o resto da imagem), e aí há outras que me deixam completamente perdidas pois não sei por onde começar (você já montou um céu azul?). todas envolvem um desafio interno que preciso superar para chegar mais próxima de uma totalidade, tal qual olhar para todas aquelas peças jogadas no chão e a noção de que podem formar uma só coisa.

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Maureen Gallace

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é um momento mais introspectivo. nem sempre abro as cortinas da sala pra deixar a luz entrar; me incomoda o barulho lá de fora – as pessoas passando e deixando rastros. muito movimento me deixa inquieta – como se eu precisasse o tempo todo me preparar e antecipar para algo que está por vir, algo é esperado de mim: uma concordância, uma verbalização, uma autorização, um planejamento. muitas pessoas me perguntam “como não me sinto sozinha” nesse apartamento grande ou por tantas horas sem sair ou por tantos dias sem visitar meus pais etc., mesmo nas férias. nada disso me incomoda, pra ser sincera. e nas férias há menos cobrança para ser uma pessoa no mundo.

tenho me questionado se preciso (ou se quero) ter um impacto no mundo, na vida das pessoas, por meio da arteterapia ou se conseguiria me permitir (e me satisfazer) com apenas encontrar o meu caminho, me tornar uma versão cada vez melhor de mim mesma. e eu sei que também há uma possibilidade de só me tornar uma versão melhor de mim mesma tendo um impacto na vida das outras pessoas por meio da arteterapia.

por isso escrevo. para tentar nomear e dar sentido. para visualizar os monstros, interagir com as dúvidas, mapear os problemas, conversar com as possibilidades. tudo isso é minha companhia e por isso não me sinto sozinha.

_ e só para finalizar com recomendações culturais, que também fazem com que me sinta menos sozinha: leiam Miranda July, ouçam Lorde, assistam The Love Witch e Big Little Lies. a Maureen Gallace vocês já conheceram.

she’s so hard to please but she’s a forest fire
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