Tags

,

no sábado, rolou tiroteio pertinho do bar onde eu estava. pessoas saíram desesperadas, algumas em choque, outras se abaixando, umas correndo. na hora não me pareceu nada de mais, eu nem me agachei direito. achei que era briga e considerei também que fosse assalto. o assalto me assusta mais, não sei o por quê. ou sei.

quando eu tinha uns 8 ou 9 anos, acho, assaltaram o mercado do meu pai. eles queriam entrar, tinha gente lá dentro ainda (funcionários e clientes). tentaram evitar que os caras arrombassem a porta e meu pai acabou ficando pra fora, junto com dois ladrões armados. meu pai pedia para entrar, mas ninguém abria. apanhou dos caras, bateram na cabeça dele com o revólver.

eu estava numa festinha de aniversário. lembro-me do meu pai ter vindo me buscar, com a cabeça enfaixada, minha mãe junto. eu não entendendo nada. ele contou a história por cima, fiquei achando que ele era o máximo porque tinha brigado com os ladrões. minha mãe foi mais realista: “não mataram por um milagre!”.

creio que foi a primeira vez que entrei em contato com essa possibilidade: a de que qualquer pessoa pode chegar a qualquer momento e matar alguém da sua família. e alguém de fato matou alguém da minha família, arma de fogo também.

e fiquei refletindo um pouco sobre essas coisas desde sábado. o quanto essas peças do quebra-cabeças da minha personalidade ajudam a definir alguns dos meus comportamentos, do meu medo. tem momentos de irracionalidade que rola um “tá tudo bem morrer”, mas eu nunca passei por algum risco de vida realmente. não sei como reagiria.

penso mais no depois, no sobreviver, no trabalho que é lidar com estresse pós-traumático. é um dos temas que mais me interessa, talvez por achar que seria uma das coisas mais difíceis que enfrentaria, caso envolvesse a violência física. na verdade, o estresse pós-traumático é algo comum, embora as reações mais fortes estejam ligadas a eventos vividos também mais intensos.

creio que nesses momentos a fragilidade do existir volta à tona. talvez um ser mais iluminado aceita o que vier como o que deveria ser. mas depois digo que não. que tem que se permitir a indignação, a raiva, a negação etc. e também fico admirada como, apesar de toda a tristeza e mal no mundo, ainda consigo encontrar e criar momentos de felicidade, de confiar nos outros, de acreditar na generosidade. sei que nem tudo é claro e nem tudo é escuro, mas às vezes o esforço e o sucesso em enxergar a luz é que se torna o verdadeiro milagre.

I remember, I remember when I lost my mind
There was something so pleasant about that place
Advertisements