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de vez em quando ao visitar a cidade em que eu nasci, me permito uma caminhada pelo centro pra ver como estão as coisas. como raramente saio da casa dos meus pais quando venho, por causa da correria e dos compromissos, é legal passear sem nada pra fazer. caminhando por ali, reparando nas lojas que fecharam, nos cafés vazios porque afinal são duas da tarde de uma quinta pós feriado. sempre considerei uma cidade “jacu”, o que não significa que seja sem seus encantos. todos em volta seguem, trabalham, cumprem horário.

eu não. estou de passagem, uma existência sem compromissos. sem local ou hora certa. a sorveteria mudou de lugar; o shopping diminuiu de tamanho – é a crise, alguém falou no caminho. é também a cidade onde cresci. não tive infância em outro lugar e hoje me dou conta da quantidade de coisas que escrevo aqui que são permeadas pela nostalgia – envolvidas por essa cidade, portanto. talvez o resgate do ontem me pareça a única alternativa pra entender o presente; do futuro já não sei nada.

talvez daí também essa paixão pela terapia, vê-la como solução e salvação – falar do passado mais do que tudo. um eterno ressignificar porque eu nunca senti algo que não ressoe até hoje aqui dentro. se há resolução, eu não sei, nunca vi. essa busca incessante e obsessiva pela linguagem, por novas formas do dizer & expressar – minha destruição é perguntar pro outro: você também sente isso? como se qualquer coisa fosse sentida da mesma forma por pessoas diferentes. devo largar essa teoria e essa prática.

passei pelo teatro, tomei um café, vendi livros no sebo, acendi uma vela na igreja, peguei o ônibus lotado. cheguei até a ter saudades de morar aqui. sei que é passageiro. mesmo passageiro, não nego. aí está o segredo. mas quando não nego, também me entrego demais. me exponho, me rasgo. me perco de não conseguir saber o que é de fato meu. e aí me distancio, me culpo. hoje eu disse que não sinto que os ciclos estejam se encerrando, que não lembro quando foi a última vez que me senti satisfeita com algo, exceto quando estou lendo – eis a linguagem novamente.

a satisfação vem como um gozo rápido, que só surge pra dizer que tem mais guardado para além do alcance. é frustrante porque ainda não achei o baú do tesouro, e às vezes ouço ele me chamando, mas sigo sem bússola. o ordinário eu já tenho – conversas de elevador, compras no mercado, pijama às 9 da noite, banco no dia 5. mas isso não nos sustenta. o que eu queria era achar tudo isso suportável, ter energia pra fazer isso e ainda o que mais é esperado que eu descubra sozinha; a missão da minha vida. posso perder tudo.

mas não o desejo. o desejo jamais.

O tempo rodou num instante Nas voltas do meu coração
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