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semana passada ganhei um Kindle de presente (antecipado) de aniversário e acho que foi a melhor escolha nos últimos anos. optei, meio que propositalmente, por uma obra longa para começar a testar o aparelho. só posso dizer que o texto, principalmente quando no formato adequado, flui infinitamente mais rápido no digital do que no livro. eu ainda não sei exatamente o porquê. pode ser o fator de você não ter muita noção do quanto já foi e do quanto falta (é apresentado apenas uma porcentagem elusiva). pode ser a sugestão de que você vai terminar o capítulo dali tantos minutos e então percebe que dá e sobra pra ler no caminho pro trabalho ou durante o almoço. pode ser a facilidade de carregar. ou como a tela pequena te induz a ir folheando muito mais do que num livro convencional. tem várias coisas, algumas que ainda estou explorando. outros pontos positivos são os livros mais baratos e a possibilidade de colocar PDFs baixados da internet.

o Kindle também permite que você destaque trechos favoritos e possa consultá-los tanto lá quanto online pelo navegador. às vezes me pego acessando o que sublinhei, relembrando o momento que li (onde estava ou o que senti) e em que altura da história os personagens viviam aquilo e o que mais estava por vir. como tudo digital, sempre tem essa ameaça interna (pelo menos pra mim), de que do nada tudo pode se perder. se bem que acontece da gente perder livros também. a diferença é que você perde um exemplar só e não toda uma coleção de trechos lindos. até dei uma ignorada nas obras que já estavam na fila de livros físicos e tenho baixado outros pra ler ali. talvez agora além de separar pra ler dois livros ao mesmo tempo de acordo com gênero, também faça a escolha de um ebook e um livro.


anna karenina, parte 1

annakcoscapa

sobre a anna karenina, não consigo falar dele muito ainda por não ter terminado. mas logo chego lá, se o ritmo se manter. o fluxo rápido de leitura talvez também tenha a ver com escolher logo essa obra pra começar (já li 300 páginas em 4 dias, algo que só rolou igual lendo Ferrante); estou encantado demais com anna karenina. sabendo coisas generalizadas sobre a obra e tendo ido até a segunda parte só até agora:

  • me parece que há um paralelo interessante entre anna e seu irmão, stiepan, porque ambos são adúlteros mas certamente só ela vai sofrer as consequências do escândalo de verdade.
  • também tenho a impressão de que liévin e anna, apesar de só interagirem uma vez, são os dois únicos personagens que realmente buscam e entendem as consequências do amor.
  • falando em liévin, acho ele bastante sensível, simples e sensato – características que prezo muito. não sei, entretanto, se quero que ele se case de fato com kitty.
  • a admiração que kitty tem por varenka sem dúvida daria ótimas fanfics de casal. sinceramente, o amor que parece rolar entre as duas só não é sexual porque faltou um pouco mais de intenção. o subtexto tá ali demais.
  • apesar das declarações de amor de vrónski, eu não consigo gostar muito do personagem. ele me parece frio e que vai abandonar anna quando aparecer o menor dos problemas (o que deve acontecer a qualquer momento pois estamos quase na metade da história).

(meus trechos favoritos até agora)
(vai que a nuvem onde tudo isso está salvo se perde?)


Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira.

E ainda aconteceram muitas coisas extraordinárias, que não se dizem com palavras e, depois de acordar, não se podem exprimir nem em pensamentos.

Não havia resposta, exceto a resposta genérica que a vida sempre dá para as questões mais complicadas e insolúveis. Esta: é preciso viver conforme as necessidades de cada dia, noutras palavras, deixar-se levar.

Se não houver sensação, tampouco haverá noção de existência.

“Mas lutei contra mim mesmo e vejo que sem isso não existe vida.”

Mas a negação de um fato não é uma resposta.

“Eu não danço, quando é possível não dançar.” (anna karenina, will u please marry me?)

A unidade entre todas as forças da natureza é algo que se sente por instinto.

Anna Arcádievna lia e compreendia, mas não tinha gosto em ler, ou seja, em seguir o reflexo da vida de outras pessoas. Sentia uma desmedida vontade de viver por si mesma.

“E eu mesma, o que sou, aqui? Serei eu mesma ou uma outra?” Para Anna, era horrível entregar-se a tal devaneio. Mas algo a arrastava nessa direção e Anna, a seu bel-prazer, podia entregar-se ou esquivar-se.

Eu viajo para poder estar onde a senhora estiver – disse. – Não posso agir de outro modo.

Sentia que todas as suas forças, até então desregradas, desperdiçadas, estavam concentradas em um só ponto com uma energia terrível, dirigidas para um fim venturoso. E sentia-se feliz por isso. Só sabia que lhe dissera a verdade, que viera para onde ela estava, que toda a felicidade da vida, que o único sentido da vida, para ele, consistia em vê-la e ouvi-la.

Embora se interessasse por tudo o que não lhe dizia respeito, tinha o hábito de nunca ouvir aquilo que lhe interessava.

“Começo a me cansar de lutar em vão em prol da verdade e às vezes me sinto completamente exasperada.”

Anna sorriu como se sorri das fraquezas das pessoas a quem se ama.

“Não é melancolia, não é tédio, mas algo infinitamente pior. Como se tudo de bom que havia em mim se tivesse escondido, e só restasse o mais sórdido.”

Anna compreendeu claramente que se enganava, que esse assédio não só não lhe desagradava como constituía o principal interesse de sua vida.

“Se há tantas cabeças quantas são as maneiras de pensar, há de haver tantos tipos de amor quantos são os corações.” (anna karenina, will u please marry me?)

“Penso que os homens não compreendem o que vem a ser algo desonroso, embora falem sempre do assunto.” (anna karenina, will u please marry me?)

Ficou longo tempo deitada, sem se mexer e sem fechar os olhos, cujo brilho ela mesma parecia ver, na escuridão.

O rosto de Anna continuava bonito como antes, mas por isso mesmo ainda mais desgraçado.

“Não fazem a menor ideia do que é a felicidade, ignoram que sem esse amor não existe, para nós, nem felicidade, nem infelicidade – não existe vida.”

Prosseguiu em francês, como sempre falava, a fim de evitar o tratamento intoleravelmente frio, entre eles, do pronome russo vi, da segunda pessoal do plural, bem como o perigoso ti, da segunda pessoa do singular.

Sempre, a qualquer momento que lhe perguntassem no que pensava, ela poderia, sem engano, responder: numa só coisa, na nossa felicidade e na nossa infelicidade.

Adivinhava, ali, coisas que não podia dizer à mãe, e que não dizia a si mesma. Era uma dessas coisas de que a pessoa sabe, mas que não consegue dizer nem a si mesma; enganar-se é terrível e vergonhoso demais.

But you’ll have this place to call home, always
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