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Eu devolvo seu coração.
Eu dou meu consentimento –

para o detonador dentro dela, latejando
na lama com raiva, para a sua cadela interior
e o enterro das suas feridas –
para enterrar viva a ferida, pequena e vermelha –

para a pálida tremelicante labareda debaixo de suas costelas,
para o marinheiro bêbado que aguarda em seu pulso esquerdo,
para o joelho materno, para a meia,
para a cinta-liga, para a chamada –

a estranha chamada
você vai se esconder nos braços e nos seios
e puxar a fita cor de laranja do cabelo dela
e atender a chamada, a estranha chamada.

Ela é tão nua e única
Ela é a soma de você mesmo e o seu sonho.
Escale-a como um monumento, passo a passo.
Ela é sólida.

Quanto a mim, sou uma aquarela.
Eu evaporo.

que tal essa tradução de Anne Sexton por Adelaide Ivanova. meu trecho favorito desse poema lindíssimo, segundo a tradutora [grifos meus]: “Poderia-se, assim, pela horizontalidade da relação mulher vs amante proposta por Anne, falar de sororidade e redenção: “I give you back your heart/ I give you permission”“.

ela continua, pra que eu morra de vez: “O poema traz algumas metáforas histéricas, barrocas, quase cafonas, bem ao gosto de Anne. Por outro lado, existem uns paralelismos elegantes e fenomenais, que é o jogo do material vs imaterial – representado na metáfora das embarcações. Anne, a amante, é o veleiro vermelho, glamuroso, belo e feito para a distração; a esposa é o bote salva-vidas. Há a uma diferença estética e funcional nesses dois objetos, mas acima de tudo simbólica. Há a solidez e atemporalidade da família (esposa e filhos), representados em imagens da panela de ferro fundido, a roda de oleiro, o monumento e um quadro de Michelangelo. Para Anne, uma espécie de Madame Bovary dos subúrbios de Boston, fica o que se esvai, a imaterialidade: o vento nos cabelos, a aquarela e o silêncio que é toda despedida.

enquanto eu conseguir me relacionar com a linguagem, ainda há salvação. amém.

E acabam, se despedem, mas eu nunca me esqueço
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