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uma coisa que eu sempre quis que rolasse na terapia era levar alguma produção cultural que eu gosto muito e debatê-la, de certa forma relacionando com a minha vida, como me faz sentir, motivos pra gostar tanto etc. mas isso não acontece assim, forçado – não acredito em manipular sessões já que não conseguimos enganar o inconsciente, mas é mais uma questão de espontaneidade mesmo nesse caso.

levei recentemente “hey jude” pra terapia – e só enquanto falava da canção me dei conta de que Paul a escreveu por causa do divórcio de John e o quanto isso se aplicava à minha vida atual. tem também a minha constante dor nos ombros e o verso “don’t carry the world upon your shoulders”, com o qual sempre me identifiquei muito.

e é claro que o produto cultural em si pouco importa, pode ser qualquer coisa – o importante é a ligação, o motivo de ter aparecido. mas mesmo quando eles apareciam, eu sempre me senti um pouco deslocada. minha terapeuta pede pra explicar, contar em linhas gerais sobre o que se trata.

antes, eu achava que era porque ela não tinha as mesmas referências e gostos que eu (o que pode ser verdade também, por vários motivos), e isso me incomodava. mas hoje percebi que não. o fato é que independente de ela conhecer ou não o produto cultural em questão, o mais importante é ela ouvir nas minhas palavras, que expressões uso, que imagens trago, que sentimentos evocam. o poder do verbalizar. sou eu quem faz o recorte.

e hoje, falando também de um sonho que tive, mencionei Carol. primeiro o filme, depois o livro. foi interessante contar a história, resumir, ali no calor do momento. quando me dei conta, parecia que estava falando rápido demais, que tinha me animado ao contar, não vi o tempo passar. na fase em que estou, talvez só teria me empolgado mais se começasse a falar sobre as obras da Ferrante.

ela me fez algumas perguntas: sobre o impacto histórico do livro, sobre o impacto do filme na minha vida, sobre mim, sobre meus relacionamentos; não são tópicos fáceis de abordar e talvez eu lide com eles pra sempre. só achei positivo demais conseguir juntar algo interno meu com algo externo pelo qual tenho um carinho enorme (e portanto, é internalizado também) e ainda levar isso pra debate na terapia. às vezes, a gente encontra a luz.

“We’ll meet again someday on the avenue”
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