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Não há nada acontecendo na minha vida nesse momento que seja mais importante que esse livro. Absolutamente nada. Ainda que minha rotina esteja me matando, ainda que chegar todo dia em casa às 8 e meia da noite seja horrível, ainda que eu tenha a plena certeza de que minha gastrite esteja voltando, ainda que eu chegue em casa e tenha que continuar trabalhando, ainda que eu não aguente mais meu emprego. Porque esse livro é como uma fonte de energia enorme; que me faz querer continuar no caminho em que estou – e que vai me (ajudar a) levar ao lugar que quero chegar.


A natureza da morte tem o estranho hábito de surgir nos casos de amor exatamente no instante em que temos a sensação de ter conquistado alguém, exatamente quando sentimos que fisgamos “um peixe grande”. É então que a natureza da vida-morte-vida vem à tona e deixa todo mundo apavorado. É nesse estágio que se desenvolve mais o pensamento tortuoso a respeito dos motivos pelos quais o amor não pode, não deve e não vai dar “certo” para qualquer das partes interessadas. É nesse estágio que as pessoas se enfurnam na toca. Trata-se de um esforço para se tornar invisível. (…)

A psique racional vai pescar à procura de algo que seja profundo e não só fisga o que procurava mas fica tão assustada que mal pode tolerar. Os amantes têm uma sensação de que algo os persegue. (…)

Há um ditado que diz que, quando o aluno está pronto, o professor aparece. Isso quer dizer que o professor chega quando a alma, não o ego, está pronta. O mestre vem quando a alma chama — e graças a Deus que isso acontece pois o ego nunca está perfeitamente pronto. Se dependesse apenas do preparo do ego o fato de o mestre ser atraído até nós, permaneceríamos essencialmente sem mestres pela vida afora. Somos abençoados, já que a alma continua transmitindo seu desejo ignorando as opiniões inconstantes do ego. (…)

Se for ao amor que estivermos nos dedicando, muito embora nos sintamos apreensivos ou assustados, estaremos dispostos a desembaraçar a linha dos ossos da natureza da morte. Estaremos dispostos a ver como tudo isso vai funcionar junto. Estaremos dispostos a tocar o não-belo no outro e em nós mesmos. Oculto nesse desafio está um teste inteligente do Self. Ele se encontra em termos mais claros nos contos em que o belo assume a aparência de feio com o objetivo de pôr à prova a personalidade de alguém. (…)

Na justiça dos contos de fadas, assim como na psique profunda, a gentileza no trato com aquilo que pareça inferior é recompensada pelo bem, e a recusa a fazer o bem a quem não é belo é censurada e castigada. O mesmo ocorre nos importantes estados emocionais, como no amor. Quando nos superamos para tocar o não-belo, somos recompensados. Quando desfazemos do não-belo, somos isolados da vida e deixados desamparados. Para alguns, é mais fácil ter pensamentos mais elevados, mais belos e tocar aquilo que decididamente nos transcende do que tocar, ajudar e apoiar o que não é tão positivo. (…)

O que é o não-belo? Nosso próprio anseio secreto de sermos amados é o não-belo. Desamar e mal-amar são o não-belo. Nossa negligência na lealdade e na devoção não é bela. Nossa sensação de isolamento da alma é sem graça. Nossas incompreensões, falhas e imperfeições psicológicas bem como nossas fantasias
infantis são o não-belo. (…)

Sentir medo ou desdém do inconsciente por muito tempo impede o avanço do amor. (…)

Em termos arquetípicos, desemaranhar algo é empreender uma descida, seguir por um labirinto, penetrar no mundo subterrâneo ou no lugar em que as coisas são reveladas de uma forma inteiramente nova, ser capaz de acompanhar um processo complexo. Nos contos de fadas, soltar a faixa, desfazer o nó, desamarrar e desenredar representam começar a entender algo, a entender suas aplicações e usos, a se tornar um mago, uma alma sábia. (…)

Quando a natureza da vida-morte-vida é reprimida numa pessoa ou num relacionamento, ocorre o mesmo. A vida segue claudicante, hesita, vacila, impede o movimento. Quando houve algum dano a essas estruturas e ciclos, sempre ocorre uma interrupção da libido. O amor deixa, então, de ser possível. (…)

Três aspectos diferenciam a vida a partir da alma, da vida a partir do ego apenas. Eles são a capacidade de pressentir novos caminhos e de aprendê-los, a tenacidade necessária para atravessar uma fase difícil e a paciência para aprender o amor profundo com o tempo. (…)

Quando estivermos soltando essa natureza, seria bom que cantássemos algo mais ou menos assim: Ao que eu preciso dar mais morte hoje, para gerar mais vida? O que eu sei que precisa morrer mas hesito em permitir que isso ocorra? O que precisa morrer em mim para que eu possa amar? Qual é a não-beleza que eu temo? Que utilidade pode ter para mim hoje o poder do não-belo? O que deveria morrer hoje? O que deveria viver? Qual vida tenho medo de dar à luz? Se não for agora, quando? (…)

Segurar os fios desses mistérios e desembaraçá-los gera um poderoso conhecimento do Destino e do Tempo, tempo para todas as coisas, todas as coisas a seu tempo, rolando no áspero, deslizando no liso. Para o amor não há conhecimento mais revigorante, mais benéfico, mais protetor do que esse. (…) É o que aguarda aqueles que se dispuserem a tocar o não-belo nela e que se dispuserem a soltar sua natureza da vida-morte-vida com carinho.


Mulheres que Correm com os Lobos (trechos entre as páginas 181 e 191, Capítulo 5 – A caçada: Quando o coração é um caçador solitário)

listening while posting: Pink Martini – Hang On Little Tomato

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