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ele era neurótico; paranóico; doido, até. mas quando todos souberam da notícia de sua morte, parecia que toda a preocupação que ele tinha fazia sentido ou então que se comprovava a ideia de que nosso destino final nada mais é do que uma piada cósmica. deus não é brasileiro, é sarcástico.

ele não pegava avião por medo de morrer. só andava de carro com quem já tinha passado da fase da carteira provisória – cinto de segurança antes mesmo de ligar o veículo. comia salada, comia legumes. praticava esportes. sabia que o fim da vida era inevitável, mas queria adiar ao máximo.

não adiantava, entretanto, simplesmente estar vivo. precisava ter a disposição física e mental. a segunda era a que mais preocupava: não existiam muitas precauções se tivesse predisposição para Alzheimer. lia todos os dias na tentativa de deixar a mente funcionando. lia tanto que acumulou livros por todo o quarto. eis a arma do crime.

em uma terça feira qualquer, terminara mais um exemplar literário. colocou-o na prateleira dos livros lidos, que já contava com trinta e cinco, apenas daquele ano. deitou-se. dormiu rápido. sonhou com a história. acordou morto. a prateleira quebrou. traumatismo craniano. logo ele, que de tão neurótico, achou que já tinha traumas suficientes pra uma vida.

ao som de: Devendra Banhart – Carmensita

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