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Ele era um pintor. De paredes, de rodapés. Em sua essência, um artista, ainda que de objetos que ninguém considerava obras de arte. Ele gostava de pegar o ônibus errado e ir pra lugares que nunca tinha ido – mesmo que o gasto da passagem do dia em paisagens diferentes significasse ir ao trabalho à pé.

De criação humilde, aprendera com o pai a (pelo menos) imaginar que sua profissão era importante; fazia isso pra conseguir seguir trabalhando. Na sua cabeça, inventava histórias que aumentavam a relevância de suas contribuições com as tintas. Sua favorita era sobre o dia em que conseguiria pintar todas as casas de uma rua: saberia harmonizar as cores como ninguém.

Mas antes, tinha que esperar a senhora da Rua França, número 38 morrer. Parece trágico, até mesmo maldoso. Com o intuito de ser lembrado, o pintor se encantou por aquela rua, que levava o nome do país que sempre quis visitar, como a sua obra prima. Ofereceu para todos os moradores o serviço  gratuito, desde que ele pudesse escolher as cores de cada residência – com a promessa de uma pintura de qualidade e que os trabalhos combinassem entre si.

A senhora do 38 foi a única a negar; veementemente. O pintor não entendia o motivo e desistiu após tentar convencê-la com todos os argumentos possíveis. Na verdade, desistiu quando só lhe restou a ofensa: sua casa é a mais brega da rua. A senhora emburrou e não olhou mais na cara do pintor. Enquanto a morte não chegava, as outras casas aos poucos foram pintadas.

O pintor trabalhava na casa da vizinha da senhora quando caiu e ficou gravemente ferido. Por sorte, a senhora estava perto e foi dar assistência. “Não quero saber de ambulâncias, já sei que vou morrer”, disse ele. “No meu leito de morte, só peço que me diga porque não me autorizou alterar a cor da sua casa”, continuou.

A senhora deu um longo suspiro – daqueles que deixam os que presenciam a cena meio sem graça, como se nada soubessem da vida. Talvez fosse essa a intenção. O pintor morreu antes dela explicar que não havia justificativa além de uma pessoa velha que se apega ao que está acostumada e não gosta de mudanças. Como explicar algo tão mesquinho? A morte veio. E ele foi lembrado por alterar a casa de todos os moradores da Rua França. Exceto a senhora, que teve a vida transformada pela metáfora da obra inacabada do pintor.

ao som de: Sky Ferreira – Everything is Embarassing + New Order – Ceremony

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