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sobre túmulos e a necessidade de compensar as coisas.

chegamos às dez da manhã. provavelmente o horário menos indicado para se evitar câncer de pele. ou sofrimento. ainda que no cemitério a palavra sofrimento tenha um sentido bem mais profundo e traumático.

tem gente que acha que lavar o túmulo e renovar as flores ajuda. não sei em quê, exatamente. é como se o apego àquele retângulo de mármore fosse a última coisa que restasse. pois não é mais possível trocar confidências, passar a mão no cabelo ou visualizar o sorriso.

eu prefiro só sentar e olhar. mas sem imaginar. sem pensar na trivialidade que é sermos resumidos a uma placa. a dele tem uma pena em cima, antes do nome e das datas que alguns chamam apenas de começo e fim da vida. a pena me lembra Forrest Gump, por uma associação que até faz sentido com o personagem, mas não com a pessoa – que achou o filme meio sem graça. eu acabo me apegando em coisas que foram ditas, que pessoas ele admirava.

minha mãe diz que as coisas não deveriam ser assim e que a ordem da vida está invertida. isso só me relembra que eu nunca acreditei que a vida tenha ordem. o que não faz com que não doa estar ali. racionalizar a existência não evita nada.

ao som de: Edward Sharpe & the Magnetic Zeros – Wash Out in the Rain

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